Michael Smith escreve de Puna, Índia
Asia Plateau (Foto: Leslie Nazareth )Estamos em meio às montanhas de Panchgani, sul de Puna, leste da Índia. O Centro de Conferências Asia Plateau está recebendo, de 4 a 7 de Fevereiro, um evento chamado “Coração de Liderança Efetiva” (HEL). Trinta gerentes empresariais participam, vindos de setores públicos e privados em Puna, Mumbai, Bangalore e Hyderabad.
Asia Plateau tem promovido 5 conferências sobre liderança como essa a cada ano pelos últimos cinco anos. Uma em Janeiro reuniu cerca de 35 gerentes da Administração Pública da Índia (IAS). Os números de participantes têm sido deliberadamente baixos para permitir a interação de coração-a-coração.
Como os últimos participantes vêem a crise econômica global ? A rede CNN, um pouco antes da conferência, diz que a Índia é o país mais otimista em meio aos desafios da crise econômica mundial. Seu enorme mercado interno significa estar menos propensa de ser afetada que a China, que tem estado bem mais dependente de exportações aos EUA. No entanto, a crise está afetando a Índia. A taxa de crescimento anual para 2008-09 é estimada em 7,1%, bem menor que a média de 8,52% dos últimos 5 anos.
A ênfase da conferencia HEL é sobre a honestidade e integridade nos negócios e tomada de decisão em gerenciamento, sobretudo na luz do escândalo da Satyam, que repousa como um elefante invisível na quina das discussões. Ramalinga Raju, fundador e chefe executivo da Satyam, uma das líderes entre as companhias de tecnologia da informação da Índia, falou sobre ética empresarial – apenas para revelar que se comprometeu com uma fraude gigantesca inflacionando os balanços da companhia por um bilhão de dólares. Quantas pessoas ele corrompeu para cobrir o esquema? Dois componentes da auditoria da Satyam, Price Waterhouse, a qual ele pagou bem, foi desde então suspensa.
Em contraste, os participantes do HEL em Asia Plateau viram desde o compromisso pessoal à honestidade como um ingrediente essencial de liderança. Um gerente veterano de uma companhia de engenharia líder em Puna contou como lidou com oficiais corruptos. Ele uma vez pagou propina de forma a liberar máquinas importadas de um depósito, ao invés de ver o estoque da companhia apodrecendo. Ele se justificou, disse ele, como se fosse para o bem da companhia. Mas também se sentiu desconfortável com isso. Então ele participou de um curso anterior em Asia Plateau em 2004 onde a ênfase era fazer a coisa certa, encorajado pelo conceito de Gandhi de ‘voz interior’ – a força da verdade ou Satyagraha adquirida com a reflexão silenciosa.
Isto o levou a refletir que ‘você pode ser honesto e não corrupto. Você tem que ser honesto ao pagar os impostos. A direção virá quando você começar a observar em silêncio’. Desde então, disse ele, ele se recusou a pagar qualquer propina a oficiais. Ao contrário, pagou o imposto honesto sobre importações. Quando um dos oficiais quis negociar 15% do imposto sobre importação mais a propina, o gerente disse ao próprio que pagaria o imposto correto de 20% - mas sem propinas. Dificilmente o oficial poderia fazer qualquer outra coisa. Os participantes do HEL ficaram encantados com esta história.
C. L. Kaw, ex-Presidente da Companhia Ferroviária da Índia – a maior empregadora com mais de 2 milhões de empregados – enfatiza a coragem como um componente de liderança. Isto inclui um desejo de seguir contra veteranos se acreditar que estão errados. Ele discordou com uma decisão executiva de seu antigo chefe, e o disse isso pessoalmente. Seu chefe recusou-se a reconsiderar e então Kaw se viu de mãos atadas ao invés de discordar deles. Seu chefe monitorou as ligações telefônicas de Kaw pelos três dias seguintes, e veio a notar seu erro e rezou para que Kaw mantivesse sua integridade – e para o fato de que Kaw estivesse certo e ele, errado. A decisão executiva foi subseqüentemente rescindida.
Sarosh GhandySarosh Ghandy, ex-Diretor Executivo da gigante companhia de engenharia Tata em Jamshedpur, diz que o ser humano é presenteado com 3 características únicas: ‘Somos criados à imagem de Deus; fomos dados o livre arbítrio; e temos o poder de criar’. Ele ressalta a diferença entre liderança e gerenciamento: ‘Você pode gerenciar recursos e sistemas, mas pessoas precisam ser lideradas’. Isso pode ser através de medo ou amor, diz ele.
O grupo de Bangalore consiste em sua maior parte de servidores públicos da Companhia Estadual de Energia Elétrica BESCOM, incluindo o diretor executivo, um oficial IAS. Mas este criou um problema para Gurudutt Rao, um gerente de treinamento da grande companhia de tecnologia de informação Wipro Technologies em Bangalore. Durante um debate em uma oficina ele declarou, em alto e bom tom, que teve um profundo ressentimento contra a Companhia de Energia Elétrica. Ele foi repetidas vezes estressado por falsas e exageradas cobranças que o deixaram esgotado. Agora ele quis se livrar dessa amargura e colocar o assunto pra trás – e perdoar. Esta nota de honestidade pessoal e perdão leva a uma profunda impressão aos participantes da conferência.
John Carlisle, consultor de uma grande empresa de Sheffield, Inglaterra, conduz uma chuva de idéias sobre tomada de decisão com ética. Ele contrasta autoritarismo e estruturas de gerenciamento hierárquico com liderança inspirada que melhor representa as pessoas.
Sudhir GogateSudhir Gogate, diretor da Companhia de Carburadores Keinin Fie, em Puna, tem uma grande responsabilidade e gerencia quatro segmentos na conferência. Um é marcado como ‘legal e ético’, o segundo ‘legal e não ético’, o terceiro ‘ilegal e ético’ e o quarto ‘ilegal e não ético’. Os participantes são encorajados a dar exemplos que colocariam em cada ‘caixa’. Isso leva a um debate animado, não apenas pela diferença entre o que é permitido sob a lei mas que possa ser totalmente anti-ético na prática – e ou inverso.
O professor R. Rajagopalan, de Bangalore, autor de 20 livros sobre meio-ambiente, apresenta, de forma fascinante, os desafios morais para a crise ambiental global. Conclui com uma lista do que cada indivíduo pode fazer para reduzir sua ‘contribuição de carbono’ – a quantidade de recursos que cada pessoa usa por hectare de acordo com vários estilos de vida, crescendo atualmente numa taxa insustentável e em urgente necessidade de reversão.
Na sessão de conclusão, Gurudutt Rao admitiu que veio a Asia Plateau cético sobre sua utilidade, mesmo tendo persuadido seu gerente de que o curso HEL tinha todo potencial de ser benéfico para a Wipro. Agora, diz ele, sente que ‘veio de um túnel escuro em direção a luz’, tal foi o impacto da conferência de 4 dias em seu pensamento. Ele é particularmente tomado pela noção de ‘reflexão silenciosa’ que pode ser a fonte da sabedoria interior.
Nos últimos anos cerca de 500 a 600 gerentes de negócios e servidores de toda a Índia passaram pelos cursos HEL. Busco compilar mais estudos de casos de ética empresarial.
Michael Smith é autor de ‘Confiança e Integridade na Economia Global’ e coordenador de Caux Iniciativas para os Negócios no Reino Unido.