Viagem de Gandhi começa no Maior País Muçulmano

Professor Rajmohan Gandhi proferindo uma palestra pública na Universidade Nacional Islâmica (UIN) em Jacarta, a 10 de março de 2010Professor Rajmohan Gandhi proferindo uma palestra pública na Universidade Nacional Islâmica (UIN) em Jacarta, a 10 de março de 2010Certo dia aos 16 anos, Rajmohan Gandhi, neto do Mahatma Gandhi, atendeu à porta e recebeu uma mensagem para seu pai, na época editor do jornal diário Hindustan Times. A mensagem dizia: “Primeiro Ministro do Paquistão, Liaquat Ali Khan, alvejado. Maiores informações em breve.” O jovem e impressionado Gandhi pensou: “Espero que as próximas notícias sejam que ele morreu”.

Sua atitude insensível se transformou logo após esse incidente. Após contar essa história a estudantes da Universidade Nacional Islâmica da Indonésia, 59 anos depois, o Professor Gandhi dedicou nesse ínterim grande parte de sua vida a iniciativas de reconciliação e de construção de confiança.

Público na UIN (Universidade Nacional Islâmica), Jacarta, 10 de março de 2010Público na UIN (Universidade Nacional Islâmica), Jacarta, 10 de março de 2010O discurso dirigido aos estudantes da Universidade foi o primeiro evento público da “Viagem do Diálogo e da Descoberta”, que teve início na semana passada, em Jacarta. A viagem levará o Professor Gandhi, presidente do IdeM, sua esposa Usha e delegação a cidades na Ásia, África, Oriente Médio, Europa e Américas, em suas próprias palavras “com esperança por diálogos abertos e ver o desejo de colaborar”.

No decorrer dos quatro dias em Jacarta, o diálogo incluiu encontros tanto na UIN quanto na Universidade UHAMKA, e reuniu membros das duas maiores organizações islâmicas da Indonésia – Nahdlatul Ulama (NU) e Muhammadiya – que juntas contam com 60 milhões de membros, sendo então a maior do mundo. Em todos esses fóruns, Gandhi salientou a importância de escutar com atenção – mutuamente e em reflexão silenciosa para alcançar uma sabedoria mais profunda – e estendendo a mão para todos ao nosso redor. Em um dos encontros com representantes da NU em suas sede, Dra. Lily Munir, diretora do Centro de Pesantren (escolas islâmicas em regime de internato) e Estudos Democráticos, descreveu, a partir de uma perspectiva islâmica, como a abordagem de escutar a ajudou a entender melhor o significado de suas próprias orações.

Professor Rajmohan Gandhi e sua esposa Usha sendo recebidos por Habib Chirzin na sala VIP, no aeroporto de Jacarta, em 9 de março de 2010Professor Rajmohan Gandhi e sua esposa Usha sendo recebidos por Habib Chirzin na sala VIP, no aeroporto de Jacarta, em 9 de março de 2010Dra. Munir foi anfitriã de alguns eventos públicos do partido de Gandhi com o Dr. Habib Chirzin, defensor ativo dos direitos humanos e presidente do Fórum Islâmico para a Paz e o Desenvolvimento. A programação da visita foi coordenada e apoiada pela equipe nacional do IdeM da Indonésia.

A experiência de Gandhi sobre as relações entre a Índia e Paquistão, e mais especialmente entre hindus e muçulmanos, foi o foco de interesse em muitos dos encontros. Ao falar na Escola Internacional Gandhi Memorial, na sexta-feira, ele descreveu suas experiências com orações multirreligiosas com Mahatma, quando tinha 10 anos. Algumas vezes, os hinduístas se negavam irritados a recitar versos do Alcorão. Se a persuasão não funcionasse, seu avô obedeceria a ordem, mas se recusaria então a recitar versos do Bhagavad Gita, recorrendo diretamente às observações de seu general – neste princípio, ele foi insistente. Ao ouvir a pergunta de um estudante sobre como ele toma difíceis decisões na vida, Gandhi novamente recorreu à sabedoria de seu avô: “Pense na pessoa mais fraca que você conhece e pergunte a si mesmo, como isso ajudará essa pessoa?“.

Rajmohan e Usha Gandhi recebidos pela equipe de IdeM IndonésiaRajmohan e Usha Gandhi recebidos pela equipe de IdeM IndonésiaAo longo da visita, Gandhi ressaltou o desafio representado pelo “rolo compressor da ganância”, sobretudo quando associado à dupla “medo e ódio”. Embora tenha se referido à idéia de que as sementes dessa característica são inerentes ao ser humano, assim como o desejo de “controlar, aprisionar e matar”, sua mensagem era de esperança. As pessoas têm de ser separadas do problema, salientou ele, e o processo de mudança precisa começar com o indivíduo. Se mais pessoas reconhecerem que seus erros “são o maior bem que possuem” e que seus sofrimentos mais profundos podem com o tempo “se tornar um bálsamo para outros”, os alicerces da confiança estarão construídos.

Esses intercâmbios do período passado na Indonésia representam um desafio não apenas para os indonésios, mas para todos os que se preocupam com o que pode ser feito para combater a injustiça e os conflitos no mundo. Outros podem não estar preparados para assumirem o desafio, reconheceu Gandhi, que imediatamente citou o escritor indiano Rabindranath Tagore: “Jadi tor daak shune keu naa aashe tabe ekla chalo re” - Se eles não responderem a seu chamado, caminhe sozinho.

Republika, o jornal diário da Indonésia, anunciou a visita de Gandhi. Para ler o artigo traduzido para o inglês, clique aqui.

A viagem continua esta semana na África do Sul.